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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

MARCEL PROUST - E minha busca do tempo perdido


Em busca do tempo perdido


O Narrador me transporta à antiga casa cinza de sua tia Leonie, no vilarejo de Combray, com seus quartos e sala, lindo jardim com todas as flores de verão, os portões por onde se ia até a praça e daí, aos dois caminhos:
um que conduzia a Tansoville, onde estão as flores dos jardins de Swann e o outro para os lados de Guermantes, onde o rio Vivonne, no seu eterno correr, abriga, tal qual nos quadros de Monet, suas lindas ninféias...

Talvez este se torne o meu novo livro de cabeceira onde terei que ler e reler e anotar com caneta aquilo que voltarei sempre a ler em um momento oportuno. Como agora em um pálido dia, transcrevo trechos abaixo: "Vamos! Vamos! Vamos!"


(...) insinuava em mim duas suspeitas terrivelmente dolorosas. A primeira era de que a minha vida tinha já começado (quando todos os dias me considerava como que no limiar da minha vida ainda intacta, e que só começaria no dia seguinte de manhã), mais ainda, que o que se ia seguir não seria muito diferente do antecedente. A segunda suspeita, que a bem dizer não passava de outra forma da primeira, era de que não estava situado fora do Tempo, antes sujeito às suas leis (…) Teoricamente sabe-se que a terra gira, mas de facto não damos por isso, o chão que pisamos parece que não se mexe e vivemos tranquilos.
É o que se passa com o Tempo na vida.




Quando subia para me deitar, meu único consolo era que mamãe viria beijar-me na cama. Mas tão pouco durava aquilo, tão depressa descia ela, que o momento em que a ouvia subir a escada e quando passava pelo corredor de porta dupla o leve frêmito de seu vestido de jardim, de musselina branca , com pequenos festões de palha trançada, era para mim um momento doloroso. Anunciava aquele que viria depois, em que ela me deixaria, voltando para baixo. Assim, aquela despedida de que tanto gostava chegava eu a desejar que viesse o mais tarde possível, para que se prolongasse o tempo de espera em que mamãe ainda não aparecia. As vezes, quando depois de me haver beijado, abria a porta para partir, desejava dizer-lhe: "beija-me ainda outra vez"





Já homem pela covardia, eu fazia o que todos nós fazemos, uma vez que somos grandes, quando há diante de nós sofrimentos e injustiças: não queremos vê-los; ia soluçar lá no alto da casa, ao lado da sala de estudos, sob os telhados, numa pequena peça que cheirava a íris, também perfumada por uma groselheira silvestre que crescera fora entre as pedras da muralha e passava  um ramo florido pela janela entreaberta. Destinada a um uso mais especial e mais vulgar, aquela peça, de onde se tinha vista, de dia, até o torreão de Roussainville-dePin, me serviu por muito tempo de refúgio, sem dúvida por ser a única que me era permitido fechar a chave para todas as minhas ocupações que demandavam uma inviolável solidão: a leitura, a cisma, as lágrimas e a voluptuosidade.




Muitos anos fazia que, de Combray, tudo quanto não fosse  o teatro e o drama do meu deitar não mais existia para mim, quando por um dia de inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra os meus hábitos. A principio recusei, mas não sei por que, terminei aceitando. Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheio chamados madalenas e que parecem moldados na valsa estriada de uma concha de S. Tiago.



Trata de conservar sempre um pedaço de céu acima da tua vida, meu menino - acrescentava, voltando-se para mim - Tens uma bela alma, de qualidade rara, uma natureza de artista, não a deixes em falta do que lhe é preciso




 Tanto mais agradáveis foram meus passeios naquele outono porque os dava depois de ter passado muitas horas com um livro.

 Quando me cansava de ler toda a manhã na sala, lançava o plaid aos ombros e saia: meu corpo, obrigado por muito tempo a conservar-se imóvel, mas que se fora carregando de animação e 

velocidade acumuladas, precisava logo, como um pião que se solta, despendê-las em todas as direções. Os muros das casas, a sebe de Tansonville, as árvores do bosque de Roussainville, os matagais, recebiam golpes de guarda-chuva ou de bengala, ouviam gritos alegres, que não passavam, uns e outros, de idéias confusas que me exaltavam e ainda não haviam alcançado o repouso de plena claridade, preferindo, a um lento e penoso esclarecimento, o prazer de uma derivação mais fácil para um escape imediato. 


Marcel Proust




segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

crônicas de duas cidades




Tão longe, tão perto...

Ontem encontrei uma senhora em um café na cidade de Braga. Brasileira do Rio de Janeiro. Logo mais estaria pegando o comboio para Famalicão ia visitar a filha. Olhei para seu rosto marcado e depois para seu corpo e perguntei:
“Há quantos anos esta morando neste país”
- Há trinta anos – disse-me ela
Trinta anos... Pensei atônita
Levei um choque ao retornar lentamente no tempo de trinta anos...

Novamente olhei para seu rosto, suas mãos enquanto pegava a xícara de café e com a outra mão procurava um lanche, pão com queijo, na carteira (bolsa) que trazia no braço... Devo dizer que fiquei chocada. Trinta anos de angústia... É claro que não iria perguntar a ela como se sente hoje como se sentiu dia a dia, ano após ano. Claro que não. Pois já sabia o que iria dizer, iria mentir e dizer o quanto foi feliz e hoje vitoriosa... Sentia a verdade em seus olhos escuros e em seu sorriso triste. Do seu coração ainda se podia ouvir gritos de socorro durante aqueles trinta anos....

Esse fato me levou a outro... Ano passado em frente à igreja de Cedofeita encontrei aqueles dois portugueses que tomavam um lanche e bebiam um vinho em um muro espécie de banco... Ao me verem ali do lado perguntaram se eu estava servida. É claro que sim. Providenciaram um copo e me ofereceram. O mais falante perguntou se eu era brasileira. Disse que sim. Respondeu que seu avô há muitos anos foi para o Brasil, deixando a família, avó, netos, filhos e tudo o mais. Um belo dia com uma desculpa qualquer se foi. Falou sobre o fato com grande mágoa com um olhar que não me desfitava e com cólera. Quando terminou perguntei a ele se alguma vez ele voltou ou se alguém foi visita-lo. Ele disse que não... Que nunca mais voltou... Abandonou tudo. No Brasil viveu, no Brasil morreu...

A angústia e a saudade daquele senhor que se foi e nunca mais voltou se abateu sobre mim, disfarcei olhando a igreja, o chão, o vento balançando as folhas das árvores ele me olhava com o olhar parado esperando uma resposta e tive vontade de dizer ao homem ali parado na minha frente que seu avô se tornou um morto-vivo. Dizer algo seria pedir demais a minha coragem, só porque eu era corajosa. Olhando-o, desanimei: Faltava-me a coragem de desiludi-lo. O que ele queria? Que seu avô voltasse e de joelhos pedisse perdão? Ou que a tortura eterna fosse a sua punição? Furtivamente olhei-o de lado e recuei deixando que o vinho fizesse a sua parte. Era cedo demais para eu ver tanto.
marcia lailin


O tempo e a terra

Todos os seres inteligente sabem da importância da natureza em suas vidas. Ia além. Se entrega a ela de corpo e alma. O que é o corpo se não a alma? O que é a alma se não o corpo? O que é a vida se não os elementos químicos encontrados na natureza? Senão é tudo junto ou separado?
As vezes o que fazia despertava nas pessoas um olhar inquisidor e sarcástico
- Lá vai uma tolinha descalça pela estrada – pensavam
- Lá vai um tolinho calçado pela estrada – pensava

Qual é mesmo o elemento que compõe as pedras? Não sabia
Precisava ir até o google, pai dos burros para descobrir....
Agora não é hora para ouvir Satie e Gnossienne numero 1 ou ler ali ao pé do computador que Marise Corrêia Menezes Corrêia enviou um anexo. Toda vez que faz isso sua mente foge e esquece...
Esquecer é preciso....


Encontrou um senhor antes do seu caminho se encontrar em uma bifurcação e perguntou a ele quantos anos tinha? O que fazia e se queria caminhar? Estava com um balde na mão tinha mais de noventa anos e sorriu quando perguntou se queria caminhar...
“Deixa-me trocar de lugar contigo”. Venha por alguns instantes até esse rápido movimento no tabuleiro de damas.
Respondeu ele com um sorriso suprimido, um sorriso indicado pelos lábios: “Siga em frente até uma bifurcação, depois vire a direita”.
Porque ele dizia tudo isso se tudo já estava predestinado, marcado?

Na bifurcação o concreto acabou e encontrou a estrada de terra... Louvada seja a natureza... O elemento químico penetrando em seus pés como reflexologia, não cobravam nada, pelo contrário era tão reconfortante que de minutos a minutos era preciso acorda-la para lembrar que estava em uma estrada sem mapas e não podia deixar aflorar essa parte do corpo que não tem consciência.

A claridade já havia amanhecido totalmente e era estreita e linda.
marcia lailin


Qual é o teu cheiro?

Enquanto caminho lembro do jovem português com cidadania americana... Steve é o seu nome. Estava eu sentada na grama do congestionado Porto... Sem sapatos... Ele se aproximou tirou os seus sapatos e sentou do lado. Adorei isso. São raríssimos esses seres que estão escondidos em casulos ou trincheiras, pois acabam sendo marginalizados. Falou um pouco de si, de onde veio e onde mora hoje: Viana do Castelo. Falamos sobre o mundo trágico em que vivemos e depois ele seguiu em direção ao metro, antes deixou comigo umas folhas de alfazema. Perguntei onde ele tinha encontrado essa preciosidade. Ele disse e eu mantenho o segredo

Tantas coisas passaram em minha mente... A casa quadrada modelo moderno em construção se tornando uma aberração no meio do verde que logo se tornara uma raridade. Um pé de hortelã na estrada. E a profecia da minha mãe se cumprindo: “Quando você arranca uma flor arranca o pé”. Uma rua sem saída e um senhor avisa que se eu seguir morro acima por uma trilha encontrarei uma vila, mas isso levaria uns três quilômetros. O que são três quilômetros? Sempre tive dificuldade em entender distâncias...
Ver é reparar não é a mesma coisa. Ver e reparar exige meditação.
Medita Lai...

Em que ano foi abolida a escravidão em Portugal?
Fui lentamente caminhando sem entender a estrada de concreto e a falta da terra para acalentar meus pés. No Ponto de autocarros uma propaganda: “Aberta às inscrições para utentes. (As empresas da cura) São eles: médicos, enfermagem, fisioterapia, psicologia, nutrição, banho vichy, massagem, jardim sensorial, animação, bio ginásio...”
Li a relação, entendi e pedi: “Me livre de todas elas”

Agora na manhã ensolarada no jardim dando várias voltas pela grama molhada lembrava-me deles, os engomados versados em anos de entendimentos da natureza humana dentro de uma faculdade agora formados a sorrirem com uma pele tão translucida misturado ao branco da roupa não fosse os cifrões nauseantes dos olhos acreditaria nos padecimentos ali expostos e criados de acordo com aquilo que o utente criou para si mesmo, somos maus o suficiente.
Será que conseguimos ver as cores por acaso? E entender o nosso corpo?
As abelhas precisam do pólen e as flores precisam das abelhas... Na casa ao lado uma criança canta... ia ia o... 
márcia Lailin


Agora, a visão à beira do Douro já está....
concluída, e os turistas estão
passeando com os cabelos ao vento seguram na grade.
São barras de ferro baixas capazes
de tirar a vida de qualquer um que se
arrisque sobre elas.

O comboio que liga Hospital São João a Santo Ovídio, é uma obra-prima.
assim penso e não tem mortal que tire isso de minha mente
Não vejo crianças à andar ou à procura de
um lugar para brincar pela Luis I piso superior

Entre as barras e sobre o rio
nada passará, exceto a Morte, a Chuva o Vento, Lai e o Dia de
Amanhã.
lai



domingo, 28 de janeiro de 2018

Hotel fazenda Itapuá



Não tive coragem de entrar no salão... na recepção... nos lugares que passei durante o tempo em que ai fiquei.
Não foi preciso
pelo lado de fora revi os relógios antigos e os moveis trazidos do Embu das artes pelo seu pai... ainda trago comigo a fisionomia dele... 
Andreas ...
na sala que parece ser hoje a recepção
Ele
perguntando de onde vinha e o que faria ali...
Lembro da manhã ensolarada e os beija-flores na janela... você com seus longos cabelos encaracolados sorrindo perto dela, sua mãe Cristina, tão linda, nunca cansei de olhar para ela a senhora sua mãe
... teria você na época, quantos anos? Quinze? Dezoito?
Por volta deles... embora minha mente teime em dizer:
Era uma garotinha de oito anos...
Tento lembrar do nome da família de caseiros tão achegados e leais aos patrões, o único nome que me vem a mente é Clarice...
Muitos já se foram... Ficou em minha mente a mulher que chegou pela jardineira da tarde com duas malas e desceu a estrada de terra, a mesma de agora,
quase nada mudou, tudo continua como antes,
o cheiro nativo de pinheiros, ciprestes, araucárias... a terra vermelha, a grama molhada
o alojamento dos funcionários... a capela...
e a mulher parada em frente dela


"Certo, trata-se exclusivamente de nossos corações, teve razão o poeta em falar dos “fios misteriosos” que a vida rompe. Mas é ainda mais verdadeiro que ela os tece sem parar entre as criaturas, entre os acontecimentos que entrecruzam tais fios, que os redobram a fim de reforçar a trama, de modo que entre o menor ponto do nosso passado e todos os demais, uma opulenta rede de lembranças nos dá uma variada escolha de comunicações" 

(Proust em Em busca do tempo perdido)